É absolutamente verdade que a recepção e atitudes dos adeptos bósnios para com a selecção portuguesa estiveram longe de ser respeitáveis, mas também não é menos verdade que o futebol português apresenta tantos telhados de vidro nesta matéria, que devia preocupar-se primeiro que tudo em olhar para o seu próprio umbigo e apenas depois em criticar além-fronteiras.Não estou a tentar desculpar nem minimizar os lamentáveis incidentes ocorridos durante a estadia da selecção de Portugal em terras balcânicas, apenas que estão envolvidas num determinado contexto histórico e social que convém analisar e perceber.
A Bósnia-Herzegovina é um país recente, saído de uma sangrenta guerra civil há pouco mais de uma década onde foram escamoteados os mais pérfidos ódios éticos e religiosos. Com profundos e graves problemas sociais (cerca de um terço da população activa está no desemprego) acaba por ser normal o ambiente de excitação e algum fanatismo com que alguns adeptos tenham encarado o confronto com Portugal. Estava em causa uma possível presença na fase final de um Campeonato do Mundo de Futebol, algo inédito num país sedento de glória e afirmação internacionais.
Quantas vezes já assistimos a equipas portuguesas serem insultadas pelos seus próprios adeptos em pleno aeroporto após comprometedoras deslocações europeias? Para não falar da própria selecção nacional no regresso do desastroso Mundial asiático em 2002...
Quem se recorda da monumental assobiadela que o hino da Bélgica sofreu em pleno estádio de Alvalade na fase de qualificação para o Euro'2008? É certo que as declarações do mentecapto guardião belga sobre Cristiano Ronaldo acenderam o rastilho, mas as mesmas não servem como desculpa pois não?
Atirar isqueiros, garrafas e outros objectos contundentes aos árbitros assistentes é o prato do dia por cá... logo, aqueles que se sentiram muito indignados pelos acontecimentos de Zenica não culpem o povo bósnio, tal como fez o comentador da televisão que transmitia o jogo e que se saiu com um xenófobo "esta gente". Culpem sim a FIFA, entidade que superintende o futebol mundial, sempre tão zelosa para umas coisas e que, desta vez, permitiu disputar um jogo decisivo num estádio e campo "relvado" sem as mínimas condições.




