segunda-feira, junho 16, 2025

Os novos inquisidores

A propósito da manifestação contrária à intenção da construção de uma mesquita em Samora Correia, o site inter religioso Terra da Fraternidade solicitou-me um artigo de opinião. Aqui vai:

Tenho dificuldades em imaginar a motivação de quem nunca se manifestou na vida por algo palpável e concreto no quotidiano diário, e com profundo impacto, por coisas tão prementes como Salários, Pensões, Saúde, Habitação, Educação ou Paz, e ter toda a disponibilidade para abdicar de uma tarde de feriado, de forma a engrossar as fileiras do preconceito e do ódio contra a liberdade religiosa de terceiros.

Parece estranho, soa a estranho e é realmente estranho. São tempos difíceis estes que vivemos, onde a panela de pressão do preconceito e do ódio foi destapada por quem procura por todos os meios subverter a normalidade e legitimidade de um estado de direito democrático, consubstanciado na Constituição da República Portuguesa que, entre uma série de direitos, liberdades e garantias, prevê no seu artigo 41.º a liberdade de consciência, de religião e de culto.

São fortes os apelos ao ressabiamento e à frustração contra todos os que pareçam mais fracos, mais frágeis, diferentes ou pertencentes a toda e qualquer minoria, excepto, naturalmente, a elite do sistema capitalista vigente, que financia e se diverte ao ver os seus planos de implosão da democracia a correr conforme o desejado. Afinal, quanto menor a democracia, maior a desigualdade social e o esmagamento da classe trabalhadora.

Mas desenganem-se aqueles que pensam ser isto apenas um problema subjacente da crescente radicalização da extrema-direita e dos seus epítetos ultraconservadores, retrógrados e nacionalistas. O que assistimos nas últimas semanas em Samora Correia e Benavente foi a um oportunismo político atroz do centrão dito moderado, que não hesitou em cavalgar a onda inquisitória e populista. Vale tudo para tentar recuperar o poder municipal que lhes foge continuamente desde 1979.

O concelho de Benavente, pela sua localização geográfica, nível de desenvolvimento e proximidade à área metropolitana de Lisboa e ao futuro aeroporto é hoje um palco bastante apetecível para a ocorrência das mais ferozes e apetecíveis negociatas. Os novos inquisidores, que saíram às ruas de Samora no passado dia 10 de junho, são, no fim do dia, os idiotas úteis do sistema neoliberal vigente. Cristãos de pacotilha que, caso vivessem há alguns séculos atrás, não hesitariam em atirar mulheres, judeus e muçulmanos para a fogueira, caso assim lhe ordenassem.

Não pode ter sido em vão que o saudoso Papa Francisco afirmou que: “Rejeitar um migrante em dificuldade, qualquer que seja a sua crença religiosa, por medo de diluir a cultura ‘cristã’ é distorcer o que é o cristianismo e a cultura. A migração não é uma ameaça ao cristianismo, excepto nas mentes daqueles que beneficiam com isso quando dizem o seu contrário. (…) Uma fantasia do nacional-populismo, em países cristãos, é defender a ‘civilização cristã’ de supostos inimigos, sejam muçulmanos ou judeus (…).” Honremos e defendamos o seu legado humanista e progressista. Palavra de ateu.

terça-feira, junho 10, 2025

Oh Meu Deus!

A Serra da Estrela, o gigante de pedra, imponente e silencioso, sopra-nos ao ouvido a cada momento que, para percorrer os seus múltiplos trilhos, é preciso equilíbrio, força e resistência.










terça-feira, outubro 22, 2024

Cidadania para totós

Epah bom bom era a disciplina de cidadania de Educação Moral e Religiosa Católica, onde aprendemos que uma senhora que apareceu em cima de uma azinheira a três meninos pobres analfabetos no curioso ano de 1917, foi inseminada artificialmente pelo Espírito Santo e que o fruto do seu ventre salvaria a Humanidade, justificando assim os milhões de mortos na Inquisição e nas Guerras Santas e relativizando que parte significativa dos seus fiéis celibatários tenham abusado sexualmente de centenas de milhares de crianças durante décadas e apoiado explicitamente as mais pérfidas ditaduras fascistas por esse mundo fora. Bons tempos.


sexta-feira, janeiro 19, 2024

Ponte adiada

A ponte que liga a Chamusca à Golegã é o principal ponto negro no que concerne ao tráfego rodoviário no distrito de Santarém. É uma ponte antiga, obsoleta e com visíveis problemas estruturais. Diariamente provoca infindáveis constrangimentos a milhares de automobilistas. É absolutamente prioritária a conclusão do troço do IC3 entre Almeirim e Vila Nova da Barquinha, incluindo a construção de uma nova ponte sobre as duas margens do Tejo.


Durante a última legislatura o PCP propôs em várias ocasiões a sua inscrição nos orçamentos de estado, tendo a mesma sido sistematicamente rejeitada. Inclusivamente, os 9 deputados eleitos pelo círculo eleitoral de Santarém não votaram favoravelmente essa proposta. Seria interessante irem agora fazer campanha eleitoral para a ponte e explicarem aos seus utilizadores as razões desse voto.

É por exemplos como este que se torna imprescindível eleger deputados comprometidos com a resolução dos problemas reais e concretos das populações que se propõem representar. Sim, porque nós elegemos deputados, e não primeiros-ministros ou governos, ao contrário daquilo que os media nos querem fazer crer. Pensava que isto tinha ficado claro em 2015, mas ainda há muito interesse em que permaneça confuso.

Viana-a-par-de-Alvito

Alvito e Viana do Alentejo assinalam a restauração dos respectivos concelhos, ocorrida a 13 de janeiro de 1898, com a organização conjunta da corrida Viana-a-par-de-Alvito, disputada entre os imponentes castelos edificados em cada uma das respectivas sedes de município. Realizou-se a 5.ª edição no passado domingo, com partida em Alvito e chegada a Viana do Alentejo - vai alternando anualmente - numa distância de quase 13 km, com um assinalável ganho de elevação, quase 200 metros, sobretudo na segunda metade da prova, desde Vila Nova da Baronia até à entrada de Viana do Alentejo.


Pareceu-me uma corrida interessante para começar o corrente ano. Sendo uma estreia na mesma, desconhecia o percurso e apesar de algum sofrimento na longa e contínua subida (cerca de 6 km), deu para melhorar os índices físicos, que estão longe de serem os melhores nesta fase da temporada. 5.º lugar no escalão M40, 22.º na geral, entre cerca de centena e meia de participantes, um número simpático para o interior alentejano, ainda para mais num fim-de-semana em que se disputavam provas importantes, desde logo os nacionais de estrada em Tomar, sem esquecer os Trilhos dos Reis em Portalegre ou a Meia-Maratona do Seixal.

quinta-feira, março 30, 2023

5 minutos de Jazz

Por norma, janto tarde. Tenho rádio na cozinha, sintonizado na rádio pública. 5 minutos antes das 10 da noite lá vinha ele com o seu icónico "5 minutos de jazz". Um hábito de anos a fio que hoje termina.

Obrigado, José Duarte, por nos mostrar o quão incrível e diversificada é a música jazz.


sábado, março 12, 2022

«Que tempos são estes em que temos de defender o óbvio?» (*)

Que tempos são estes:

- onde em plena era da Informação, há tanta disseminação de desinformação?

- onde se romantiza a ida de voluntários, sem qualquer formação militar, para a frente de guerra?

- em que se limita a empatia com refugiados mediante a cor da pele e a distância geográfica?

- onde se clama por sanções económicas, sem pensar no efeito boomerang?

- onde a narrativa dominante não admite contextualização ou enquadramento?

- onde a fúria vingativa não admite a predominância do apelo ao cessar-fogo?

- onde o conhecimento não é bem-vindo, e tudo se resume a bons e maus, heróis e vilões?

- onde se achincalham as posições pacifistas de quem sabe a barbárie que é a guerra?

- onde se normaliza e relativiza entregar armas a grupos paramilitares nazis?

- em que se exige mais guerra para se obter Paz?

(*) Bertolt Brecht

terça-feira, novembro 10, 2020

domingo, dezembro 09, 2018

Sub 2h49' na Maratona de Málaga

Gosto de números, estatísticas e de definir metas. Nesse sentido, tinha cinco objectivos para a minha sexta maratona:

- o 1.º, o mínimo, era naturalmente terminar a prova;
- o 2.º, o razoável, era baixar das 3 horas;
- o 3.º, o principal, era bater o recorde pessoal que estava nas 2h51'18'';
- o 4.º, o excelente, era quebrar a barreira das 2h50'; 
- finalmente, o 5.º, o fantástico, era baixar dos 4'/km, o que equivaleria a fazer pelo menos 2h48'25''.

A preparação para a prova decorreu conforme planeado. Durante quatro meses foram percorridos mais de 1300 km, aos quais se juntaram cerca de meio milhar de km de ciclismo e meia centena de natação, sem esquecer ainda muitas horas de alongamentos, flexibilidade e de reforço muscular nas aulas de pilates e de pump. Sim, porque o atletismo não deve ser só corrida. Pelo meio de tudo isto deu ainda para bater os recordes pessoais aos 20, 15 e 10 km em Almeirim, Benavente e Samora Correia, respectivamente.

Hoje, tratava-se apenas de desfrutar da maratona. O famoso muro dos 30 km não é um mito. Parece-me cada vez mais real. A partir daí foi cerrar os dentes e dar tudo para tentar minimizar as perdas de tempo. Com o aproximar do final da prova mais pesados se tornavam os quadricípetes. Consegui passar a meta com 2h48'53", à média de 4'00''/km. Quatro objectivos alcançados. O quinto fica para a próxima.



Málaga, a cidade mediterrânea de Picasso, tem praia, porto, uma marginal enorme e um bonito centro histórico. Fiquei agradavelmente surpreendido com o percurso.
 
Obrigado pelo apoio e incentivos. Agora vou descansar. Voltarei mais forte.

quinta-feira, outubro 30, 2014

Meritocracia

Este é o "elevador social" que o paulinho das feiras anunciou até à exaustão durante a campanha das últimas legislativas.