segunda-feira, maio 10, 2010

Os 'meus' 23... e os 24(?) de Queiroz


Quim (Beto)
Eduardo
Rui Patrício (Daniel Fernandes)
Miguel
Rúben Amorim (Paulo Ferreira)
Ricardo Carvalho
Pepe
Bruno Alves
Rolando
(Zé Castro)
Fábio Coentrão
Duda
Pedro Mendes
Miguel Veloso
Raul Meireles
Tiago
Carlos Martins (Ricardo Costa)
Deco
Simão
Nani
Cristiano Ronaldo
Liedson
Hugo Almeida
Nuno Gomes (Danny)

Entre parêntesis e a negrito as diferenças para a convocatória de Queiroz.

Muito sinceramente, as minhas expectativas para o anúncio dos eleitos de Queiroz eram bastante baixas, mas nunca pensei que conseguissem atingir um nível tão ruim! As incongruências do seleccionador nacional são tantas e de tão elevada ordem que nem sei por onde começar...

Principiemos então pelo número de convocados, 24, supostamente para atentar sobre a condição física de Pepe. Mesmo que o luso-brasileiro recupere e esteja apto para participar na competição, denotará certamente falta de ritmo, sendo sempre um elevado risco a sua inclusão no onze. Talvez por isso tenham sido chamados mais 5 defesas centrais, número completamente absurdo, mesmo sabendo que um deles deverá deixar a convocatória.

A posição de defesa central é uma das mais específicas do Futebol e entre outros aspectos determinantes, requer um forte entrosamento entre os jogadores que ocupem essa posição. Talvez por isso, Humberto Coelho no Euro'2000 e Scolari no Mundial'2006 apenas chamaram 3 jogadores para a posição, número que se viria a revelar mais que suficiente em ambas as campanhas. 4 é o número mais lógico, 5 é um exagero, mas se atendermos às características dos centrocampistas eleitos, onde apenas Deco apresenta inegáveis qualidades ofensivas, concluo que a táctica de Queiroz deverá passar pela retranca pura e dura seguindo muito provavelmente as linhas mestras do outro treinador português actualmente na berra...

Os nomes de Ricardo Costa e José Castro são surpresas totais. Quase ninguém apostaria na chamada dos dois centrais, ainda relativamente jovens, que passaram grande parte da temporada no banco de suplentes das respectivas equipas, sem esquecer que o primeiro foi sempre um jogador sobrevalorizado e pouco ou nada tem feito de relevante na sua carreira.

Ainda mais estranha é a chamada de Daniel Fernandes, guardião do modesto Iraklis da Grécia. Arrisco-me a afirmar que cerca de 95% dos adeptos de futebol em Portugal nunca tinham ouvido falar deste tipo. Pessoalmente, recordo-me de algumas das suas actuações na selecção de sub-21 e, para além da sua elevada estatura, pareceu-me um guarda-redes perfeitamente banal. O facto de Quim, campeão nacional e autor de excelente temporada, ter sido preterido em favor do grego deixa-me simplesmente perplexo...

A outra grande injustiça é a ausência de Rúben Amorim, jogador maduro, centrocampista completo e capaz de alinhar com grande desenvoltura na lateral direita onde é com toda a certeza muito superior ao rudimentar Paulo Ferreira, um tipo que, sempre sem jogar nada de especial, tem caído nas boas graças dos treinadores. Com um dos melhores empregos a nível mundial, visto que é pago principescamente para assistir aos jogos do Chelsea na tribuna VIP ou no banco de suplentes do Stamford Bridge, não consigo esquecer as suas actuações desastrosas no Euro'2008...

Finalmente, as ausências de Carlos Martins e Nuno Gomes - aliadas às dos citados Quim e Rubén Amorim, salvou-se Fábio Coentrão - sugerem-me um feroz anti-benfiquismo por parte de Queiroz, algo muito em voga ultimamente no país. O médio, reconhecido pela sua versatilidade e potência de remate, seria a única alternativa a Deco ao passo que o avançado, pela sua enorme experiência e características distintas relativamente às de Liedson e de Hugo Almeida seria sempre nome a considerar, embora Danny não deixe de ser um jogador interessante e acabe por perceber a lógica da sua chamada. Carlos Martins acabou por pagar a factura do 5º central, analogia que pode também ser feita a João Moutinho, embora aqui esteja de acordo com Queiroz já que o capitão do Sporting tem estagnado o seu jogo nos últimos tempos.

quarta-feira, maio 05, 2010

RISE UP!


Em 1872,
Eça de Queiroz escreveu o seguinte nas crónicas As Farpas: "...Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito.
Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá... vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal".

Passados 138 anos, constata-se que Eça foi um visionário, prevendo com bastante antecedência o caos que alastra actualmente por terras helénicas e que, pelos vistos, não tardará a atingir o pequeno rectângulo na ponta ocidental da Europa.

Têm-se generalizado, um pouco por toda a parte, os comentários depreciativos e insultuosos para com o povo grego, em virtude de Portugal lhes emprestar cerca de 2 mil milhões de euros. Começando por "mandriões" e "calões", passando por "preguiçosos" e "estroinas" e terminando em "vândalos" e "arruaceiros", são estes os adjectivos simpáticos com que o típico labrego tuga classifica o povo grego.

Provavelmente não saberão que os gregos irão receber (ainda) menores salários e pagar 23% de IVA, entre outras fortes medidas de austeridade impostas pelo seu Governo, como moeda de troca para desbloquear a ajuda financeira europeia. Não lhes convém lembrar que o povo grego chegou a este estado caótico devido a terem sofrido na pele a incompetência de políticos corruptos durante décadas. E esquecer-se-ão certamente que Portugal é o próximo parente pobre europeu com a mão estendida. Afinal de contas, um dos pilares fundamentais da magnífica UE é a solidariedade entre os povos que dela fazem parte...

Não me querendo comparar a Eça, longe disso, escrevi há cerca de ano e meio um texto intitulado O rastilho onde verificava existirem muitos paralelismos negativos entre Portugal e a Grécia. Infelizmente, não me enganei por muito, embora perca nitidamente para o Eça por cerca de 136 anos...

Para terminar deixo-vos uma imagem de esperança, tirada ontem da Acrópole de Atenas, onde os camaradas do Partido Comunista Grego (KKE), organizaram uma manifestação, lançando um apelo aos povos da Europa para se erguerem contra o capitalismo selvagem e o neo-liberalismo, os causadores de toda esta imensa crise.


segunda-feira, maio 03, 2010

A (inevitável) 'belenensização' do Sporting


As ruidosas manifestações dos últimos dias trataram de dissipar quaisquer dúvidas que ainda subsistissem sobre qual é o segundo clube com maior número de adeptos em Portugal. É claramente o anti-Benfica, suportado pela (quase) totalidade dos adeptos do FC Porto e pela esmagadora maioria dos torcedores do Sporting.

Tal obsessão ainda é compreensível no caso dos portistas, afinal o Benfica dominou a seu belo prazer o panorama nacional nas décadas de 60 e 70 e rivalizou ombro a ombro com o FCP durante a década de 80 e início da seguinte. Relativamente aos sportinguistas trata-se acima de tudo de tacanhez e inveja por tudo o que vem do outro lado da Segunda Circular. Depois de conseguir estancar um extenso e doloroso processo de belenensização com a conquista dos títulos nacionais de 2000 e 2002, a presença na final da Taça UEFA de 2005 e várias participações consecutivas na Champions League, o Sporting acaba de realizar a pior época desportiva dos últimos onze anos, motivo que seria por demais preocupante e merecedor de ampla reflexão para os seus associados e simpatizantes.

Nas últimas quatro temporadas alcançou outros tantos segundos lugares, motivo de júbilo e contentamento para a generalidade dos seus adeptos, já que ficaram sempre à frente do velho rival, o Benfica, não se preocupando minimamente em criar condições para suplantar o emblema - FC Porto - que venceu 17 dos últimos 26 campeonatos.

Pior que tudo isto é a falta de coerência e objectividade por parte dos actuais dirigentes leoninos que parecem gerir o clube em cima do joelho e ao sabor do vento. Depois de dezoito longos anos (1982-2000) sem conquistar o campeonato, já passam oito desde o último triunfo e não parecem existir condições para travar esta marcha. Desta vez a belenensização do Sporting parece inevitável, com o beneplácito dos seus próprios adeptos que se contentam com o mal do Benfica...

domingo, maio 02, 2010

Títulos entregues de bandeja


Quis o desígnio do calendário que Liverpool e Lazio recebessem hoje Chelsea e Inter na parte final e decisiva dos campeonatos inglês e italiano. Até aí nada de mais, não fosse o facto que caso os líderes da Premiership e da Serie A fossem travados, reds e biancocelesti estariam a dar uma ajuda preciosa aos seus principais rivais, Man Utd e Roma, algo extremamente difícil de digerir para os seus próprios adeptos.

O que se passou em ambos os encontros foi algo de verdadeiramente incrível, quase surreal...

Começando por Anfield Road, não se pode dizer que o Liverpool entregou o jogo aos blues, entrou até melhor na partida com Aquilani a rematar na trave da baliza de Cech. O impensável aconteceu ao minuto 33, com Steven Gerrard a tentar um atraso para Reina, acabando por assistir Drogba, que não desperdiçou tamanho ensejo. Não, não me enganei, foi mesmo o capitão e lenda do Liverpool, um dos melhores jogadores da actualidade e dos últimos anos, a oferecer de bandeja o primeiro golo ao Chelsea.

A partir daí o jogo tornou-se simples para os blues, que assumiram sem grandes sobressaltos o efectivo controlo do mesmo, com Lampard a ampliar a vantagem logo a abrir a segunda metade. Com este triunfo basta ao Chelsea vencer o Wigan em casa na última rodada, algo que se afigura como muito provável. Gerrard e o Liverpool podem assim ficar descansados, pois continuam com 18 títulos, os mesmos do ultra-rival Man Utd...

É-me difícil encontrar adjectivos que classifiquem o ambiente no Olímpico de Roma. Ficaria-me por um simples e eloquente estranho. E porquê? Os adeptos da Lazio puxaram efusivamente pelo Inter, assobiaram ruidosamente o desempenho dos seus próprios jogadores e vaiaram as defesas do seu guardião, o uruguaio Muslera, praticamente o único que se opôs com afinco às investidas do Inter, adiando o primeiro golo até ao último minuto da primeira parte.

A segunda metade pareceu um verdadeiro jogo amigável, jogado no meio-campo a ritmo baixo, digno de se assistir para quem sofre de insónias. Motta acabou por fazer o segundo tento para os nerazzurri, na sequência de um pontapé de canto, confirmando o regresso do Inter à liderança do Calcio.

Acredito que, caso a Atalanta tivesse ganho ao Bolonha, a postura dos adeptos e jogadores da Lazio não tivesse sido esta. O espectro da descida de divisão está praticamente afastado e assim nada melhor do que impedir o arqui-rival citadino de continuar a sonhar com o scudetto. Deplorável e anti-desportiva a atitude dos tifosi da Lazio que não tiveram problema em desfraldar algumas tarjas verdadeiramente inqualificáveis.

quarta-feira, abril 28, 2010

Special 'retranca' One


Esteja onde estiver Helenio Herrera - inventor do catenaccio e bi-campeão europeu pelo Inter na década de 60 - certamente que estará deliciado e profundamente orgulhoso com o futebol (?) apresentado pelo seu mais fiel discípulo, José Mourinho. O que aconteceu hoje em Camp Nou foi a personificação daquilo que é a essência do anti-futebol, retranca pura e dura!

Podem alegar os bajuladores e lambe-botas de Mourinho que o Inter jogou cerca de uma hora com dez elementos, mas a verdade é que o estilo ultra-defensivo de jogo praticado pelos nerazzurri não sofreu a mínima alteração com a expulsão de Thiago Motta. Passou de um 4*5*1, para um 4*5*0 com o central blaugrana Piqué a ficar completamente sozinho no círculo central. O guardião Valdés foi um mero espectador da partida.

Arrisco-me a afirmar que muitos jogadores do Inter não passaram sequer da linha de meio-campo durante todo o encontro e o único remate que me recordo é um de Chivu a abrir a segunda parte, completamente inócuo. Feio, muito feio, não me ocorrem outras palavras para classificar a actuação da formação nerazzurra.

Sinceramente, gostava de ver amanhã os comentadores da treta defenderem o seu querido Mourinho, com as tiradas banais do pragmatismo, do resultado e blá blá blá. Depois, lembrar-lhes-ia a tão criticada Grécia de há 6 anos atrás. Nem nos piores sonhos os comandados de Reaghel actuaram de forma tão desprezível como hoje o fizeram os de Mourinho, o treinador mais defensivo e com a maior estrelinha da sorte da actualidade.

A passagem do Inter à final da Champions representa o triunfo da retranca perante o futebol espectáculo. Pode-se acusar Guardiola de ser um eterno romântico, esteve a ganhar em San Siro e nem por sombras pensou em recuar para segurar a preciosa vantagem. Manteve o mesmo estilo atractivo e ofensivo de sempre, algo que lhe saiu imensamente caro, já que sofreu três golos de contra-ataque, que se revelariam fatais no desfecho final da eliminatória.

Pep armou bem a equipa para o encontro de hoje. Colocou Milito na esquerda para segurar Eto'o e Maicon, recuando Touré para o lado de Piqué, de forma a ter mais um organizador de jogo do que propriamente um central. Com a expulsão de Motta, exigia-se de imediato mais ousadia e esperou até ao intervalo para lançar o acutilante Maxwell na esquerda. Pior ainda foram as opções no segundo tempo. É certo que Ibrahimovic está uma sombra do portento que já foi, mas nunca o devia ter retirado de jogo. Por mais que não fosse só a sua estampa física impõe respeito e poderia abrir espaços para colegas vindo de trás. Bojan e Jeffrén ainda são demasiado verdes para estas andanças, tal como se comprovou no incrível falhanço do jovem avançado a pouco mais de 10 minutos do fim. O experiente e outrora letal Henry ficou no banco e parece iminente o divórcio com Guardiola.

Apesar das duvidosas opções tácticas tomadas por Guardiola, o Barça esteve a um passo da final, já que após um brilhante golo de Piqué - a mostrar a Ibrahimovic como se faz - acabou mesmo por marcar o segundo tento, injustamente invalidado por bola na mão em Touré e não mão na bola como o árbitro belga erradamente ajuizou. Depois do empurrão dado por Olarápio, perdão Olegário, Benquerença na partida da primeira mão, nada como outra ajuda para o angelical Moratti, o tipo que afinal também estava (e bem) envolvido no Calciocaos...

Para terminar em beleza, assinala-se a natureza provocadora de Mourinho. Não se contentou em levar para o banco de suplentes Luís Figo, esse mesmo o pesetero e o tipo que cobrou ao Estado português o pequeno-almoço mais caro da história do país, como ainda festejou de forma completamente inqualificável a qualificação, mal o árbitro soprou para o final do encontro. Só foi pena Valdés não lhe ter acertado o passo...

Adeus ao 'Cantinho do Morais'


Faleceu hoje, aos 75 anos de idade, João Morais, antigo jogador do Sporting e autor do golo que permitiu ao emblema leonino conquistar a única competição europeia da sua história, a Taça das Taças, em Maio de 1964 frente ao MTK de Budapeste, através de um pontapé de canto directo!

Depois de afastar Man Utd e Ol. Lyon, os leões chegaram à final no Heysel em Bruxelas onde empataram a três bolas com os magiares. Dois dias depois, em Antuérpia, disputou-se a finalíssima, decidida com o golo solitário e singular de Morais. Curiosamente, na altura, Morais ainda não era titular do Sporting, apenas alinhando devido à fractura numa perna que Hilário - outro dos míticos nomes leoninos - sofreu três dias antes da final.

Morais ficou ainda célebre pela participação no Mundial'66, acusado injustamente pelos brasileiros como causador da lesão de Pelé, durante o jogo que os magriços venceram por 3-1, afastando a selecção canarinha de qualquer hipótese de revalidação do bi-campeonato.

Numa altura em que se assiste de forma aparentemente imparável à belenensização do Sporting, parte uma das suas lendas. A seguir o vídeo com uma excelente reportagem da RTP, efectuada há alguns anos e hoje novamente transmitida:


domingo, abril 25, 2010

Para quando o verdadeiro 25 de Abril?


Não, não foi um qualquer D. Sebastião montado num cavalo branco a romper o nevoeiro matinal que libertou os portugueses das mordaças da ditadura fascista. Foram sim, valentes capitães que, numa madrugada primaveril de 1974, se lançaram à aventura, apoiados na sua coragem e bravura, para colocar ponto final num regime que, durante longos e terríveis 48 anos promoveu a opressão, a miséria, a ignorância, a injustiça e a guerra ao povo português.

O Estado Novo – autoritário, nacionalista, conservador, corporativista e de inspiração fascista - há muito obsoleto, caiu de podre, não esboçando grande resistência aos avanços da Liberdade e da ânsia pelo fim imediato de uma guerra colonial demente e sem sentido que ceifou milhares de vidas inocentes, espalhando o caos e a destruição nas colónias.

Os presos políticos foram libertados, a censura foi extinta, a liberdade de expressão garantida e a polícia política desmantelada tal como todos os baluartes do Estado Novo. Subsequentemente foi concedida a independência às colónias africanas e alcançaram-se grandes conquistas sociais: fixação do salário mínimo, atribuição do subsídio de férias (13º mês) e subsídio de Natal. Nacionalizaram-se os principais meios de produção privados e fomentou-se a Reforma Agrária no Alentejo, num claro objectivo de rumo ao Socialismo, devidamente legitimado pela futura Constituição de 1976.

No entanto, quase cinco décadas de fascismo deixaram remanescentes, em especial no Norte do país, conservador e de forte inspiração católica, conotado como reaccionário relativamente ao Sul revolucionário. O confronto parecia iminente e a guerra civil esteve por um fio no quente mês de Novembro de 1975, surgindo então uma terceira via, a que se pode considerar como vencedora, o Grupo dos Nove, moderado comparativamente às posições extremadas e defensor dum projecto socialista alternativo baseado numa democracia política, pluralista, nas liberdades, direitos e garantias fundamentais.

Por mais incrível que hoje possa parecer, o PS e até o próprio PSD afirmavam-se defensores das doutrinas socialistas, redigindo e aprovando, em conjunto com o PCP, a Constituição da III República Portuguesa, onde ficaram devidamente consagrados o forte papel do Estado na Economia do país, o direito universal e gratuito à Saúde e Educação, o pluralismo partidário, a liberdade religiosa e a laicidade do Estado, o poder autárquico, a descentralização das competências do Estado, entre outras medidas de forte carácter progressista.

No papel, a Constituição Portuguesa é das mais avançadas a nível mundial e tem tudo para promover a prosperidade, a equidade de oportunidades e a justiça social aos seus cidadãos. Ao fim e a cabo foram estas as grandes esperanças depositadas na Revolução dos Cravos.

Passados 36 anos, concluo que o grande problema recai sobre nós, portugueses em geral, que temos elegido ininterruptamente governantes com o estranho poder de desvirtuarem e aniquilarem (quase) todas as expectativas e conquistas de Abril.

Prometeram-nos mundos e fundos com a entrada na União Europeia e na plena economia de mercado. Durante anos e anos jorraram milhões vindos de Bruxelas, muitos deles desperdiçados em quilómetros infinitos e inúteis de auto-estradas. Outros tantos foram esbanjados em supostos subsídios para a Agricultura, sendo antes aplicados em vivendas, jeep’s e piscinas... Investimento na Saúde e na Educação – pilares nucleares da sociedade de todo e qualquer país – pouco ou nada foi feito, para não falar em Ciência ou Cultura. Afinal, a velha máxima “quanto mais inculto é um povo, mais facilmente é enganado” continua a ser inteiramente válida.

Ambições pessoais desmedidas da elite do país, pântanos, fugas para Bruxelas, privatizações sem nexo, corrupção e promiscuidade a rodos entre a classe governativa e empresarial, tachos para os boys, crescente desigualdade social, desemprego galopante, pobreza, perda de direitos laborais, endividamento crítico da classe média, défice excessivo do país, prisão efectiva para quem rouba uma carteira no metro e impunidade para com o crime milionário de colarinho branco, lucros e prémios obscenos para algumas empresas e gestores (em particular no sector da Banca, das Energias e dos monopólios), espectro da bancarrota a pairar num horizonte não muito longínquo. Num traço muito geral e bastante sintetizado é este o retrato de Portugal desde 1976 até hoje.

Conclui-se assim que as esperanças depositadas pelo povo português no 25 de Abril estão muito longe de estar alcançadas! As ambições e expectativas consagradas na Constituição foram sendo desvirtuadas e adulteradas de forma contínua pelos sucessivos governos da República. Batemos no fundo, está visto e revisto que o neo-liberalismo e o capitalismo selvagem não são solução. A construção da sociedade socialista em Portugal falhou rotundamente e não foi por culpa do Socialismo.

quinta-feira, abril 22, 2010

140º aniversário de Lénine



"Os capitalistas sempre chamaram liberdade á liberdade de obter lucros para os ricos, à liberdade dos operários morrerem de fome." - Vladímir Ilitch Lénine, intelectual, filósofo, economista, político, publicista, orador, líder do proletariado mundial, criador do partido bolchevique, organizador da primeira revolução socialista vitoriosa e fundador do primeiro Estado socialista – a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

segunda-feira, abril 12, 2010

Um salto atrás... *


Como fã incondicional de Yelena Isinbayeva não poderia deixar passar em claro o seu anúncio de retirada temporária da alta competição. A atleta russa de 27 anos, bi-campeã olímpica e detentora de 27 recordes mundiais no Salto à Vara, pretende efectuar uma pausa na carreira ao mais alto nível, decisão tomada muito provavelmente como consequência das participações menos conseguidas no Mundial de Berlim disputado no Verão passado e no recente Mundial de Pista Coberta em Doha.

Os falhanços nas referidas competições devem ser encarados apenas e só como fracassos normais, de momentos menos bons, para quem dominou de forma tão intensa e completamente à vontade o panorama mundial da modalidade nos últimos anos. O contínuo e enorme stress competitivo a que foi sujeita pode ter originado um forte desgaste físico e emocional, fenómeno extremamente comum no panorama desportivo de alta competição.

Posto isto, acredito que o descanso só fará bem a Yelena e que ela regressará mais forte que nunca, pronta a continuar o seu desafio às leis da gravidade. Novos recordes mundiais e o título olímpico em Londres são objectivos realistas e perfeitamente concretizáveis!


* ...para em seguida dar dois à frente!

domingo, abril 04, 2010

Não ao PEC!


O português, na sua generalidade, adora siglas, sejam elas de que tipo for. A última sigla a entrar no vocabulário comum é o PEC. O som é simpático, tem uma pronúncia agradável, mas as medidas lá propostas são miseráveis. Nada de preocupante para o Governo, afinal a malta fala e critica sem fazer grande ideia do que está em causa. Dá muito trabalho ler e analisar as propostas em questão. E assim continuam eles, com as suas políticas desastrosas - já lá vão 35 anos do mesmo - perante um povo amorfo e inócuo, que come e cala.

Sócrates prometeu não aumentar o IVA e cumpriu. Sócrates toma os portugueses por parvos e a verdade é que se vai pagar mais IRS, por via da dedução dos benefícios fiscais e das deduções à colecta. Esta medida afectará todos os que ganhem mais de 517 euros por mês, escapando-se apenas aqueles que recebem na ordem do salário mínimo, já de si uma verdadeira miséria.
Logo, lá estarão os do costume - classe média e média-baixa - a pagar a crise. Contrapõem os defensores do PEC argumentando da introdução de um novo escalão de IRS: 45% para quem declare rendimentos anuais superiores a 150 mil euros. O negrito na palavra declare foi propositado. Quem estiver neste escalão só mesmo se não puder é que vai declarar tal quantia! E sabe-se bem como essa dita elite é artista na fraude e evasão fiscal, ou seja, esta medida é apenas para inglês ver! Tal e qual como a tributação de 20% das mais valias obtidas em bolsa! Trocando por miúdos, esta proposta é aceitável e justa, o problema é que ainda não está prevista data para o seu início...
Quanto à função pública, tantas vezes conotada como privilegiada, terá os aumentos salariais abaixo da inflação até 2013. Sobre a Banca nem valerá muito a pena comentar. Lá continua no seu pedestal, intocável, gerando muitos milhões de euros de lucros anuais, pagando apenas cerca de 13% de IRC, contra os 27% que pagam as empresas em geral. Quando as coisas correrem para o torto, leia-se tipos como Oliveira e Costa ou João Rendeiro meterem ao bolso, lá estará o Estado a amparar os golpes, nacionalizando com o dinheiro de todos nós...

Contrapondo, temos a privatização dos CTT e da TAP e das participações do Estado na REN, EDP e Galp em vista no PEC, negócios ruinosos para o país, que serão apenas e somente balões de oxigénio, vulgos tapa-buracos para os cofres do Estado. Quando o dinheiro recebido pelas privatizações acabar, lá continuarão as citadas empresas a darem lucro, só que desta vez a encherem os bolsos dos capitalistas (oportunistas) do costume. Convém ainda realçar que o Governo planeia alienar dois monopólios naturais como são a distribuição da correspondência e a electricidade, fundamentais na manutenção da coesão territorial.
Os grandes grupos económicos portugueses não se preocupam em criar e inovar, mas sim em capturar ao Estado monopólios que lhes garantam a obtenção de lucros sem concorrência e onde tudo já esteja realmente feito. Prossegue assim o desmantelamento do Estado Social com a conivência tácita dos liberais da União Europeia. Salta à vista imediatamente qual é o verdadeiro objectivo destas privatizações: passar para as mãos dos amigalhaços de PS, PSD e CDS as empresas que dão lucros fabulosos, garantindo belos tachos após deixarem a política activa. Afinal, é assim que tem funcionado o nosso país desde finais de 1975, até quando o continuaremos a permitir?

O PEC não é uma inevitabilidade, existem alternativas propostas pela verdadeira Esquerda Socialista. A CGTP-IN propõe acabar com o outsourcing ou limitá-lo bastante, argumentando que no ano passado foram gastos mais de mil milhões de euros a encomendar serviços aos privados, havendo, no Estado pessoas capazes para os assegurar. O congelamento dos salários da função pública não promove a melhoria do poder de compra, tão necessária para dar ânimo à economia.
Outras medidas necessárias passariam pela identificação dos responsáveis pelas derrapagens nas obras públicas (fazendo-os pagar por isso), pelo assalto às offshores e pelo combate à fraude e evasão fiscais. Coisas tão simples e que não aparecem no PEC, porque será?

Para ler na íntegra a apreciação e propostas da CTGP-IN ao PEC clicar aqui.